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Capítulo 1 - "O berço das Trevas"

 

 

 

   O lento trote dos cavalos parecia lhe ninar. Contínuo e nauseante. Distantes e constantes eram os passos dos eqüinos que guiavam a carruagem. Lentos, à brisa sua branca crina se entregava cavalgando sobre o vento, assim como os passos de seus donos. Olhando desatentos, seguindo ordens de quem os guiava caminhavam de forma rígida sobre o chão de terra batida da estreita estrada.     

  Cabelos loiros pendurados na janela da carruagem, seus fundos olhos eram a face do seu cansaço. Mar de cristalinas águas, doces sonhos carregavam em suas pupilas que lubrificavam seu olhar. Por fora, a fadiga de uma vida sedentária de mulher das terras medievais. Cabelos ressecados pelo tempo seco, pendiam e balançavam pelos solavancos de seus fieis servos eqüinos.

  O monge que guiava sua rústica carruagem, praticamente hibernava ao seu lado. E o sonolento ar que impregnava o interior da carruagem destruía, de fora para dentro, sua vitalidade de mulher. O frescor da mata intocada tocava-lhe o rosto e refrescava seu espírito devagar. Devagar, pois era de se esperar de uma bela manhã de sol, pensava consigo, que ‘se não fosse essa viagem, tudo seria perfeito.’

  Sascirce ainda não havia se acostumado àquelas longas viagens que fazia a mando de seu pai. “Longas e nauseantes”, pensava. A pouca paciência que possuía esgotava-se. E, imersa em seu próprio descontentamento, viu um vulto na estrada...

   Rápido. Por um momento ponderou se realmente o havia visto. Ao colocar sua cabeça para fora da carruagem para ver o que se sucedia, nada além de árvores pôde enxergar.

   O clima pesado da umidade dentro da mata parecia deixar tudo ao seu redor ainda mais lento e vagaroso, cansativo e confuso. Voltou-se.

  Foi quando abruptamente a carruagem parou. Os cavalos relinchavam adiante dela enquanto ela gritava o nome do coche, com sua voz feminina e leve.

  Gritou “Nabou”, mas não havia resposta. Um misto de temor e preocupação com a vida de seu subordinado a fez saltar diante da porta da carruagem, para então ir atrás do responsável pela turbulência em sua viagem. Deixando então para trás a carruagem, ela saltou. 

  O som da mata a perturbava. O silêncio era o que na verdade a torturava. Lentamente se aproximou dos cavalos... Tocando neles devagar, os acariciando para que ficassem mais quietos. Chamando novamente o coche da carruagem, não obteve resposta. Percorreu a visão ao seu redor. Olhou o topo da carruagem, onde ele deveria estar guiando. Porém, lá ele não estava.

  Gritou então mais alto ainda o nome do coche. Enquanto se escorava em um dos cavalos, o mistério fazia seu coração palpitar cada vez mais rápido.

  E a passos lentos, Sascirce caminhou em direção ao outro lado da carruagem. Olhos atentos e pupilas arrebatadas pelo temor. Porém foi ao contornar a carruagem que ela o encontrou.

  O terror da morte atingiu seu rosto feminino enquanto, ao chão, pendia um corpo sem vida de um monge lançado à fria terra batida. Em seu pescoço uma flecha certeira que tingia o marrom do chão, em vermelho sangue.

  Segundos após o choque, paralisada e tomada por uma sensação de vertigem, Sascirce ainda sem proferir palavra alguma correu até o corpo inerte ao chão. Suas lágrimas não eram movidas pelo luto, mas pelo medo. Medo do desconhecido, medo da morte iminente. Nem ela própria tinha discernimento o suficiente para entender o que sentia naquele momento. Um misto de pavor, lamento e receio... Pois, quem quer que seja o responsável pela morte, não hesitaria em fazer o mesmo a ela.

  Debruçou-se sobre o corpo em prantos e agarrada às suas vestes, tentou erguer o inerte cadáver ainda quente. Sujando suas delicadas mãos com o rubro sangue que esvaia de sua jugular. Havia sido um golpe mortal. A flecha estava tão presa ao pescoço do monge, que por pouco não o transfixava. E situada de tal forma que, provavelmente, ele nem tenha se dado conta do que havia lhe atingido. O assobio póstumo de lugar indefinido... Pois uma flecha silenciosa mataria a qualquer um.

  E um novo assobio que cortou o ar... Outra flecha chocou-se ao cadáver tão abruptamente, que uma única e singela gota de sangue agarrou-se ao rosto da jovem. Sascirce voltou seus olhos buscando a origem da flecha... foi quando ela o viu. 

  Era um homem de porte médio, com cabelos negros tão compridos e lisos que cobriam parte de seu rosto, trajava negro e com graça portava um enorme arco prateado. Lentamente ele caminhava em direção a Sascirce. Só então ela percebeu outro pequeno detalhe no assassino. Ele possuía orelhas pontudas que saltavam de seus negros cabelos.

  Era um elfo. 

– Perdão pela intrusão.

Era uma voz nítida e decidida.

– Eu não queria atrapalhar seu momento de ternura senhorita.

A jovem ergueu-se rapidamente em choque. O outro monge, que até então permanecia incógnito, saiu em disparada, deixando para trás apenas seus suspiros ofegantes como prova de sua decadência física. E sem entender coisa alguma, proferiu algumas palavras para si aproximando-se do corpo morto.

– Procuro uma coisa importante senhores...

  Disse o misterioso assassino. Seu gélido olhar os fazia paralizar... E sem nada dizer, o gordo monge correu mata adentro. 

  Instantaneamente o elfo ergueu seu arco ao céu, e empunhou mais uma flecha. Fez um ângulo alto, e mesmo não tendo seu alvo em vista, a flecha subiu mais e mais, e percorreu o céu acima da copa das árvores.  Quando enfim desceu, o fez veloz e letal como um raio vindo dos céus. Ao longe, pode-se ouvir somente um grito abafado.

  Com um largo sorriso cínico o elfo regozijou-se, esperando que houvesse alguém para aprecia-lo. Mas não havia. Por aquele breve momento ele havia se descuidado, e como resultado deste ato falho, a mulher havia escapado.

  Novamente sorriu para si mesmo. Achou graça da situação... Afinal, também não poderia matá-la... caso o fizesse, a quem interrogaria? Aos cavalos?

  Entrou na mata como uma de suas flechas. 

  E, como um raio, ele a perseguiu.

© Olhos Eternos por Daniel Liu. Todos os direitos reservados. 

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