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Capitulo II - “De volta a casa”

 

 

 

 O frescor e o silêncio da mata já haviam se entranhado em sua alma desde a sua saída de Édrin.

    Seu corpo e espírito demonstravam total sintonia com tudo ao seu redor. O brilho do sol, as gotas remanescentes do orvalho penduradas em pequeninas e verdes folhas, o cantar e ruflar das asas dos pássaros...

  Entorpecente e hipnotizante harmonia, que absorvia por completo seus visitantes e atingia de forma perfeita quem adentrava nela. De forma muda para aqueles que não sabem ouvir a voz da terra. Os pequenos insetos que pousavam nas flores em meio ao mato fechado, aqueles que se acasalavam com os mesmos de suas espécies, aqueles que se enterravam sobre a escura terra... Tudo era vida. E ocorria, na sua forma mais casual para Aledom. Os vívidos zunidos e gritos agonizantes de seres que viviam e padeciam, sobre o manto esverdeado de vida... Com o tempo, lhe passou despercebido.

  “Meio-Humano”, como o chamavam. Apesar dos rápidos olhos e das pontudas orelhas ele jamais viu e ouviu como um legitimo elfo. Esforçava-se sempre, mantendo seu equilíbrio psicológico de acordo com seus aguçados sentidos. Concentrava-se tanto, que já chegou a pensar que via e ouvia bem melhor que alguns outros elfos de Édrin. Esforçava-se demais em ser quem na verdade ele não era.

  E num dado instante, floresta adentro ele ouviu um grande desequilíbrio.

  Era certamente um trote humano. Feminino, desengonçado e desequilibrado.

  E a seu encalço uma figura corria, numa movimentação bem mais coordenada que a da humana mulher. Era impossível identificar características mais precisas de ambos.

  Correu. Aledon seguiu-os, porém logo perdeu o rastro de ambos.

  Parou em meio à mata. Observou ambos os lados, enquanto as folhas das árvores desciam sobre si derrubadas pelos ventos mansos da floresta. A luz no topo, nada ajudava. Clareava tudo, mas não lhe mostrava nada. Pensou consigo... Podia estar sendo observado por um dos dois de qualquer lugar daquela floresta. 

  Ouviu novamente ruídos adiante. Pôs-se a correr novamente. Era a humana provavelmente. Seguiu-a. 

  Aledon correu o máximo que pode em meio à terra coberta de folhas e arbustos rasteiros... Quando, novamente, a perdeu. “Raios!”, teria dito Aledon se realmente estivesse decepcionado. Ele quase a havia alcançado.

  Silêncio novamente na mata. Optou por andar lentamente, enquanto passava seus olhos por todos os lados, seu capuz ainda lhe cobria a cabeça. Passou por árvores com troncos enormes, as quais requisitariam um grande número de homens para que fosse possível abraça-las.

  Essa área da mata era deveras acidentada. Pequenos morros e árvores exageradamente grandes.  . 

  Aledon podia ouvir somente o som de seus próprios passos agora ao longo da floresta. Passos que arrastavam-se na vegetação rasteira sob seus pés.

  Foi quando, de súbito, um golpe tentou atingi-lo. Mal havia percebido o agressor, mas havia se defendido instintivamente. Era ela. Uma mulher de longos cabelos loiros. Portava uma inusitada arma mortal em suas mãos. Um grande galho de árvore. E não satisfeita com seu estado ofegante e cansada, tentava novamente acertar Aledon com um enorme pedaço de madeira. Aledon desviou de alguns de seus golpes, mantendo a distancia, enquanto do rosto da moça escorriam rios de suor cristalino e pesado.

  Tomou o pedaço de madeira de sua mão prontamente. Abismada com a habilidade do meio-humano a mulher parou e, de olhos arregalados de medo, o observou.

  Cansada, deu alguns passos para trás, o que a fez cair sentada no chão encostada a uma árvore. O terror repercutia em seus olhos, e instintivamente pôs-se a gritar com sua voz rouca.

  Aledon nunca havia se deparado com uma mulher humana antes. E havia a identificado correndo devido sua falta de coordenação motora.

  E enquanto ela se matava de gritar, ele a observava intrigado... 

  Aproximou-se dela aos poucos e ela foi acalmando-se. Tentava ver a face de Aledon, porém ela estava quase que totalmente coberta por seu capuz. 

  Aledon estava agora bem próximo à humana... Ela paralisada no chão e Aledon agora bem próximo. Se encontravam naquele momento olhando um nos olhos do outro. E vendo sua calma, ela dali o fitava. Isso a assustava. Ela podia sentir um intenso calafrio no início de sua espinha...

  Aledon abaixou-se próximo a ela, e a deixando olhar em seus olhos perguntou:

– Você está bem?

  Nunca havia falado a língua dos humanos com outro humano, muito menos com uma pronuncia tão bem falada. Um sotaque um tanto quanto estranho, claro... 

  Neste momento Aledon virou-se de costas a ela e tornou-se para onde haviam surgido dois outros humanos. Haviam chegado correndo até ali, e perplexos observavam os dois tentando imaginar o que ocorria.

   Os humanos os fitaram por alguns segundos antes de proferirem alguma palavra. Parecia que a conclusão era obvia. Uma mulher ao chão, um homem encapuzado em pé. Porém, este homem não lhes parecia com o intuito de fugir nem ao menos de feri-los.

  Aproximaram-se dos dois e ajudaram a dama a se erguer, e sem que percebessem, Aledon se dirigia novamente até a mata. E antes que desse mais algum passo...:

– Ei você! Não vai nos contar o que aconteceu?

  Aledon virou-se e respondeu asperamente:

– Não.

  Não era sua intenção responder tão arduamente... não foi isso que eles imaginaram. Enquanto um deles, um rapaz bem vestido, de cabelos curtos e traços finos, acalentava a moça.

– Onde você estava indo? Perguntou o outro, o ruivo, aparentando ser um camponês. 

Porém, Aledon nada lhe respondeu. E ali ficou parado fitando-os, enquanto a moça começava a lhes explicar o que havia acontecido...

  Ela lhes contou que vinha numa carruagem com alguns monges, proveniente de um monastério da região e que não carregavam nada de valor. Contou que foram atacados por um Elfo arqueiro, que sozinho matou rapidamente os dois monges e a teria matado se não tivesse corrido enquanto ele atacava um dos monges. 

  Um elfo aqui em neste pequeno continente de Ágras? Perguntaram-se os rapazes. 

Pois se acreditava que já não haviam mais elfos nas distantes terras de Édrin. E justo um elfo assassinando monges? Nenhum deles jamais havia visto um elfo com seus próprios olhos antes. Temerosos, olharam para Aledon.

– E onde ele se encaixa? Perguntou um dos jovens. 

A moça respondeu que parecia que nada tinha a ver com os crimes, e que havia tentado ajuda-la... Enquanto ela tentava acerta-lo com um galho.

  O rapaz que estava a acalentar a moça aproximou-se de Aledon e proferiu:

– Sou Mathaios.

  Estendeu-lhe a mão. Porém Aledon deu de costas no mesmo instante e enquanto dirigia-se a algum lugar disse:

– Aledon Talguem.

E encaminhando a moça na mesma direção... Mathaios ficou pensativo. E alto pronunciou, “Talguem”... Consigo mesmo ele pensava em segredo. Era um nome incomum, não tão diferente, mas possuía fonemas um pouco mais complexos daqueles usados na linguagem humana.

– Seu nome... É estrangeiro ou algo do tipo?

  Aledon sem sequer olhar para trás respondeu caminhando pela mata. E logo também pensou consigo... este homem não era um homem comum. Era culto e bem vestido. Provavelmente filho de alguém com muito dinheiro ou poder.

– É um nome élfico. O nome de minha família.

  E já na estrada, os três humanos paralisaram com a revelação. Assustados e observando Aledon de costas, ambos silenciaram enquanto entreolhavam-se.

– Você é um elfo?

  Perguntou Mathaios a Aledon, que ainda de costas virava seu rosto na direção deles com sua cabeça coberta por um capuz. Sascirce afastou-se um pouco e escondeu-se atrás de Mathaios. Aledon virou até eles e respondeu:

– Não.

  Nenhum deles havia entendido o que ele dissera.

– O que quer dizer com isso? -Perguntou o grosseiro camponês.

  Aledon, perdido com seus olhos em ambas as direções da estrada, demorou alguns segundos para responder, como se pensasse em algo diferente do assunto discutido naquele momento. Contudo respondeu:

– Significa que meu pai é humano.

  Caminharam alguns passos em uma das duas direções lentamente, e seguido pelos outros Aledon continuou.

– E minha mãe é uma elfa.

  Ambos os humanos perplexos nada responderam a ele. Ainda sobre o efeito de sua frieza de espírito tipicamente élfíca, Aledon os tratava com distância, apesar da aproximação momentânea dos humanos. E enquanto entreolhavam-se naquela enorme estrada no meio do nada, feita de terra batida e coberta em ambos os lados por árvores enormes, Aledon, olhando os seus dois horizontes, perguntou-lhes:

– Para onde vai esta estrada?- Perguntou-lhe apontando em uma das direções.

  Sascirce caminhou alguns passos e passando as mãos sobre seus cabelos, disse-lhe:

– Essa estrada leva a Torizonhe.

  Aledon instantaneamente seguiu pelo lado citado e, antes que pudesse perceber, era seguido pelos humanos. Aledon parou em meio à estrada, e os questionou:

– Estão me seguindo?

  -Não. 

Respondeu Mathaios.

– Torizonhe é a cidade mais próxima daqui.

  Aledon continuou seu caminho, e foi quando sentiu uma mão sobre seu ombro o detendo. Virou-se, enquanto Mathaios o fitava com um olhar desconfiado. 

– Até há algum tempo atrás eu nunca havia ouvido falar numa união entre um humano e uma elfa... Como podemos ter certeza de que não foi você quem atacou a jovem dama?

  Aledon retirou a mão de Mathaios de seu ombro e virou de costas novamente. Mathaios, irado com sua atitude, foi contido por Sascirce que segurou seu punho e lhe disse:

– O elfo que me atacou... Tinha um arco enorme... E cabelos compridos.

– Isso não significa nada! Você, Talguem, descubra seu rosto!

  Aledon parou em meio a estrada... E com um ódio perceptível mesmo por debaixo de seu capuz, respondeu:

– Talvez eu não esteja ouvindo muito bem, humano...

  Voltou-se até eles enquanto, tenso, Mathaios permaneceu a observá-lo. E enquanto Aledon caminhava em sua direção, pôs uma de suas mãos por dentro de suas vestimentas, desamarrou uma espécie de alça, tornando duas espadas curtas ainda embainhadas. Mathaios recuou alguns passos. Aledon seguiu amarrando as bainhas em suas costas, deixando ambas as espadas em ponto de uso. Parou há poucos metros de Mathaios, de onde podia sentir o medo exalado pelo homem.

– Vê humano?

  Aledon lentamente ergueu ambas as mãos, retirando suas espadas simultaneamente. Porém, antes que pudesse terminar de desembainhá-las, Sascirce entrou no meio dos dois, enquanto o elfo concluía:

– Uso duas espadas curtas. Não um arco.

  Recolocou abruptamente suas espadas nas bainhas, e com uma das mãos abaixou seu capuz, a fim de mostrar seu rosto.

  Mathaios nada disse. Seu cabelo era curto, seus traços eram finos, e suas orelhas, levemente pontudas. 

  Seus cabelos eram curtos... Sascirce prontamente respondeu que não era ele o assassino.

  Mathaios observou Aledon virar-se de costas novamente e seguir pelo caminho. Ergueu uma de suas mãos até seu rosto e pediu desculpas. Aledon nada respondeu.

 

  Abandonaram a confortante harmonia que regia o imenso reino da floresta e, aos poucos, sem que percebessem, os sons, as cores e os seres habitantes mudaram drasticamente. Só um deles percebia tudo com atenção. 

  Meio-humano, meio-elfo... Mas o que isso fazia dele afinal? Duas origens tão distintas quanto o dia e a noite, a luz e a escuridão, a ordem e o caos... unidas nele? Impossível. Deveriam sim possuir alguma semelhança, algum ponto em comum. Tais pensamentos perturbavam a afiada mente de Aledon. No fundo, talvez esta mente nem fosse tão afiada quanto ele gostava de pensar. Talvez fosse somente mais um tolo no meio de muitos outros tolos, apesar de acreditar no contrário. Mas naquele momento, seus sentidos estavam somente concentrados em uma coisa ou, melhor dizendo, em todas as coisas ao mesmo tempo. Ainda na mata, manteve-se afastado. Não por grosseria, mas por precaução. Se estivessem sendo seguidos, acredite... Aledon saberia. Eram muitas informações diferentes num mesmo momento. Chegaram a um pequeno vilarejo. O comércio estava movimentado hoje. Pessoas por todos os lados. Muitos humanos! Como procriavam tão depressa esses humanos? 

  Podia ver com clareza as diferenças entre a civilização que deixou e a que estava observando. Aledon, perdido no meio daquela bagunça de imagens e informações diferentes, ia se distanciando do grupo que o acolheu na viagem sem que percebesse.

– Aledon!

  Parou. Era seu nome. 

– Para onde você irá agora? -Perguntou-lhe Mathaios.

  Aledon virou o rosto em sua direção e disse:

– Não existem muitos lugares para se ir nesse vilarejo, eu acredito. - Respondeu Aledon.

 Mathaios se compadeceu do meio elfo. Na estrada, o havia julgado mau e sentia-se ainda culpado por isso... Apesar de arrogante, o viajante não era perigoso. E ali não era o seu lugar. Aledon contrastava com tudo aquilo. Ele era um... estranho.

– Você não parece muito familiarizado com... Tudo isso ao redor... Eu devo ficar alguns dias na cidade. Levarei a moça à sua residência e, como você não conhece muito bem as coisas por aí, venha me procurar se precisar. Está certo?

  Aledon caminhava ainda desconfortavelmente diante daquela bagunça. Com seu rosto quase completamente coberto por seu capuz, evitava que olhassem diretamente para seus olhos... Estranhou a atitude do humano. Os humanos eram conhecidos pelos elfos por sua cobiça e desonra. E essa era a razão pela qual ele nunca havia sido tratado como um elfo legítimo em Édrim. Lembrou-se de como os olhares se desviavam e os assuntos se encerravam quando ele, ainda uma criança, buscava por respostas. Por que não era como os outros? Seu pai era um homem tão desprezível quanto os elfos classificavam o restante dos humanos? Seria ele também, por sua natureza, desonrado? Seus pais o haviam abandonado... e ele cresceu sozinho. Cresceu acreditando em grande parte do que lhe ensinaram. Aprendera a não confiar na generosidade dos homens.

– Isso não irá acontecer.

  Seguiu um caminho aleatório e não mais olhou para nenhum deles. Era como se não admitisse que percebessem sua fraqueza. O vilarejo de certa forma o assustava. Poderia sua natureza humana se adaptar a esse “novo mundo”?

© Olhos Eternos por Daniel Liu. Todos os direitos reservados. 

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